sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

o futebol.

Foi de primeira e de canhota, mas certou o chute de mau jeito. Pegou entre o mindinho e a parte lateral direita do peito do pé. A bola atravessou a rua, em uma curva, até então, fisicamento duvidável, embora da arte de brincar em coletivo com os pés, seria uma tolice sempre esperar pelo previsível.

No outro lado da rua, ouviu-se o quebrar da vidraça. E logo, a molecada evadiu num piscar de olhos. Seu Carlos, senhor robusto, com seu chapéu impecável de abas bem dobradas, veio à rua com a bola na mão procurando o responsável pelo prejuízo de uma janela recém colocada. - E as visitas de amanhã? - resmungou.

Na rua, sobrou Murilo, que não participava da pelada, não conhecia direito a molecada e também não tinha intenções de cagoetar ninguém. Logo, nele foi feito do acidente a guerra, a partilha da África mal resolvida, a morte de Franz Ferdinand. Tudo isso condensado num discurso autoritário, ameaçador, que chegava a ser engraçado.

Murilo não disse uma palavra, manteve o semblante sério, e teve nele a culpa. Viu Seu Carlos dar-lher as costas com autoridade militar de uma infância de poucos amigos, de nunca ter sido chamado para jogar um futebol com os colegas e com uma leve dor no peito, fruto de uma pressão alta.

Quem nunca quebrou uma vidraça, jamais vai aprender a perdoar.

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